Era um misto de prazer e dor. Violência. Que se foda o carinho. Tinha dor. Que se foda a poesia. À merda com todas aquelas coisas bonitinhas que um dia sonhei em lhe dizer. Coisinhas fúteis, piegas e babacas. Coisinhas que você deve ter cansado de ouvir das menininhas boçais desse mundinho medíocre que você bem conhece. Coisinhas de folhetins baratos que nada tem a ver com essa história de Marques de Sade que nos propomos viver. Por inferno a porra da esperança de que um dia você venha a entender as metáforas, os textos, as cambalhotas. Ou que venha, um dia, ter a capacidade de, pelo menos, responder à altura as minhas belas palavras desperdiçadas em textos e cartas que já lhe enviei. E que, sinceramente penso, você nunca as realmente compreendeu. Poesia, meu caro, poesia. Mas afinal, era para quilo que fomos ali, não era? Para o nosso banquete de carne barata. Para a nossa obrigação. Então agora eu de quatro, “vaca que sou”. Meio prostituta, meio princesa, meio menina, meio mulher, meio sozinha. Nada inteira. Só meia. E meio gostando daquilo. E meio odiando aquilo tudo. Olhava para os vários espelhos, os enormes espelhos, os gigantescos espelhos e gostava. Era um misto de prazer e dor. Nada a ver com a minha realidade tão pudica e romântica. Sabe que tenho o sonho do amor? É, daqueles de casar de véu e grinalda, flores de laranjeira, família grande com crianças no quintal, almoços de domingo, mãos dadas, felizes para sempre. Mas tinha que cumprir um papel, e um papel já estreado, afinal se passaram um ano e meio desde o dia em que lhe disse sim, fazendo surgir toda aquela necessidade, toda aquela urgência. Assim meio suja, meio satisfeita. No meio de tudo, no meio de todas. Tinha medo dos nomes, eram tantos os nomes, algum podia não ser o meu. Canalha, tinha pânico de numa dessas, meu nome trocado e o tesão mutilado. Já pensara nisso de outras vezes, mas desta tinha um pavor de realidade, sabia das várias outras. Desejava o silêncio dos nomes e os barulhos da nossa pornografia. Anda me coma antes que eu lhe engula. Fala besteiras pra eu fazer com seu pau que por vezes me machuca o ventre. Talvez fosse de raiva, talvez de desespero. Quanta experiência! Aprendeste mais com as tantas outras que vens catalogando? E as outras todas a me atormentar o sexo sacana de pudica.
Pensava que depois iria ser paga, ele me deveria pagar. Mas quanto? Quanto eu valia? Naquele momento creio que muito pouco. Gueixa de quinta. Sentia-me apenas mais uma, nada de especial. Mas eu era especial! Eu tinha de ser especial. Ele era. Ele príncipe às avessas do meu conto de fadas forjado pela contadora de causos, sempre a aumentar um ponto para acreditar. Historiadora de merda, sem fatos plausíveis, sem documentos, sem verdades. Apenas com um chegue para pagar no final. Meu gigolô barato. Tinha que acabar logo. Por alguns momentos eu já exaurida banhada em suor lhe ouvia dizer que queria mais, que ainda não era a hora de acabar. Faminto. Atleta do sexo. Mas só pelo prazer de mais uma comida. E eu já saciada de uma realidade que não era o que queria. Mas era preciso ainda continuar. Havia uma coisa pela qual eu esperei. Era preciso continuar tentando. Havia uma coisa pela qual eu esperava. Era necessário continuar tentando. Exaustos os dois. Por fim, pedi que ainda permanecesse. Um resto de romantismo, de carinho, de esperança, de desejo de morte. Queria sentir seu peso a me esmagar. Queria ser esmagada. Sai rápida, viva, para preparar seu banho. Maquiando uma realidade pela terceira ou quarta vez, já nem sei mais, me perdi na contagem das mentiras. Já nem eu mais era convencida.