Escrevi esse texto em 2001.
Esse foi um texto que nasceu para fechar uma história que já estava no fim...
Em 2002, durante a 3ª edição do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, inscrevi o texto para apresentá-lo como uma cena. Na época uma grande atriz e minha amiga estava passando por um momento semelhante ao meu. E como ainda não haviamos trabalhando juntas, resolvi dar a ela esse texto e ela se tornou a Metafórica nos palcos...
ELA - Vou embora! Olha, quando eu me virar não volto mais. Ouviu? É isso mesmo, vou embora definitivamente. Arrumei a mala, coloquei o quarto em ordem, troquei os lençóis, agüei as plantas, e até fiz as compras da semana. A geladeira tá cheia, não precisa preocupar. Tem uma lista na geladeira que diz onde está o quê, mesmo porque do jeito que você é sem ela era capaz de ficar anos sem nem saber o quê está aonde. Meu Deus! Fiz compra pra dois. Acho que por um bom tempo eu ainda vou pensar as coisas assim, em dobro. Passei a maior parte da vida pensando em um, aí de repente aparece você e... Tenho que me acostumar a somar sempre mais um ficando dois, e agora subtraio de novo e volto ao um. Nunca tinha pensado por esse ângulo: Relacionamento é matemática. E olha que eu sempre fui péssima em matemática. Gostava mais de português, história, literatura... Muito mais de literatura. Gostava particularmente das metáforas. Adoro metáforas. Aliás, sempre fui uma pessoa de metáforas. Sabe essa coisa de falar uma coisa aparentemente simples, mas, na verdade a coisa é cheia de significados subentendidos, pois é, adoro! O problema é que nem todo mundo entende. E aí fica aquela coisa no ar, pairando, sem ninguém entender. E acaba sendo meio frustrante pra quem faz a metáfora. Fica parecendo piada fora de hora e sem a mínima graça. Lembro de uma vez em que você soltou uma metáfora tão metáfora que nem eu sei se você sabe que foi uma metáfora. Afinal, nunca soube ao certo da dimensão de seu entendimento diante das metáforas. Mesmo porque era o silêncio sempre a falar mais alto. Você estava lindo na varanda olhando a noite, com um ar perdido... Parecia de mentira, e eu te olhando e pensando: “Meu Deus!” E depois de um silêncio infindo você falou a seguinte frase: “Para mim existem dois tipos de pessoas no mundo: as que dão cambalhotas e as que não dão cambalhotas”. Acho que neste momento eu parei de respirar. Foi quase um suicídio por asfixia, eu queria morrer! Fiquei te olhando e pensando: “Meu Deus!”. Ali, calada tentando decifrar aquela frase enigmática. E você, impassível, certo, assim meio esfinge, do tipo “decifra-me ou...”. E eu ali, tentando captar alguma coisa no ar. Sem conseguir mexer um músculo, com a boca seca! Sabe que foi a primeira vez que uma frase teve eco. Pois é. Foi aí que eu pensei: “Meu Deus, eu não sei dar cambalhotas!”. Por esse motivo me matriculei há duas semanas, completas hoje, numa escola de circo. Ou como gosto de dizer: escola de cambalhotas. E também há duas semanas, completas hoje, estou parada neste ponto me preparando para dar a minha primeira cambalhota. Aqui, pra você ver. Antes de ir embora. Por que é preciso. Por que são categorias muito distintas estas de cambalhota. Ou você é uma pessoa que dá cambalhotas ou é uma pessoa que não dá cambalhotas. Não existe uma pessoa de meia cambalhota. Sabe que a coisa é mais complicada do que parece, exige muito do ser humano dar a sua primeira cambalhota. É um compromisso muito sério com sua mente e corpo.
Bom, teoricamente a cambalhota pode ser explicada da seguinte forma: você se agacha, encosta o queixo no peito, impulsiona com os pés levando o corpo para frente e... Deixa rolar. Pronto você deu uma cambalhota. Contudo, se isto não for feito com uma precisão absurda seu trajeto poderá ser desastroso, levando-o a ter uma dor nas costas, cabeça, sem falar a vergonha que terá passado por ter dado ao mundo a pior cambalhota de sua vida. Assunto sério esse de cambalhota.
É, por que o problema não está na cambalhota em si, que pode ser explicada facilmente como já te disse, por que isso é antes, entende, o problema está no durante e no depois. Mais no durante... E também no depois. Está no todo. Na verdade está na metáfora! Fico angustiada quando não entendo uma metáfora. Ainda mais vindo de você! Logo você que nunca falou uma metáfora na vida. De repente me aparece com essa, de cambalhotas. Da onde foi que você tirou isso?! E logo pra mim que não sou, definitivamente uma pessoa de cambalhotas. Desculpa, mas é que eu fico nervosa. Achei que era tudo muito claro entre a gente. Mesmo com as minhas metáforas. Achei que era seguro, pronto, acabado. Não faltava mais nada. Éramos eu e você. Agora somos eu, as cambalhotas e você. Percebe, tem alguma coisa entre a gente. Porque de repente eu não te conheço mais. Não te entendo. É como se naquele dia alguma coisa se quebrasse, partisse em cacos. Você ali, parecendo mentira, lindo, sob a luz da noite, parecendo mentira mesmo e eu pensando: “Meu Deus!”. E de repente... Se quebrô! Só não sei se foi você ou se fui eu. Mas eu tive medo. Só não sei se foi de você ou de mim. Mas eu tive medo. E era um medo tão agudo que me roubava à fala, a força, o desejo. Naquele momento eu te desejei menos, te desejei longe, desterrado de mim. Naquele momento te vi pequeno, ao longe, distante de tudo aquilo que eu acreditava. Porque era tudo tão lindo. A sua chegada na minha vida, toda aquela nossa falta de jeito, eu tendo que me acostumar a somar sempre mais um, eu me transformando, somando: meus livros, seus discos, nossas panelas, minhas metáforas meio fora de hora, seus silêncios infindos, nossas noites na varanda, meus incensos, seus cigarros, nossos vinhos, meus poemas, seus carrinhos de brinquedo, nossa vida que era linda, assim como você parecendo... Mentira. E aí, sem que eu percebesse veio alguma coisa e pronto, me tirou o chão. Eu não era mais aquilo tudo, porque eu não tinha a resposta. Você tinha feito uma metáfora que eu não tinha resposta. Então você também não era mais aquilo tudo, porque de certa forma você não me era mais familiar. Era como se falasse outra língua. E aí naquele momento eu não te reconhecia mais, você era a esfinge esperando para me devorar. Me questionando e eu sem fala, sem respirar, querendo morrer. Até então tudo era como um sonho, que eu acreditava, era a nossa história. Porquê tudo era mágico, entende? Parecia que eu tinha tudo aquilo, e aquilo pra mim era suficiente. Mas você queria mais. E um mais que eu não podia te dar. Não sabia como. Como poderia dar mais? Da onde poderia vir tanta fome, por que me engolir daquela forma. E logo agora. E logo agora... Meu medo é maior. É esse medo que cala, e que conscente tudo. Medo diante das coisas... E logo eu com medo das coisas. Engraçado como elas, as coisas vão tomando forma na vida das pessoas. Tomando importância, se tornando cada vez maior a ponto de ser o todo, total. Como se isso fosse possível! Algumas vezes crescem tanto que acabam por se tornar a própria pessoa. Você perde o seu lugar, percebe? De repente você é aquilo. E já nem sabe mais quem é. Já se foi, se perdeu. E aí? Nada mais cabe, nada mais acalma, nada mais alimenta ou mata a sede. E é tudo, na verdade uma questão de tempo. Até que um dia você acorda vazia, vazia desse todo. Você é o que? Não importa, já se foi, se perdeu. Não tem volta. A maior metáfora que existe: você é a metáfora. Engraçado isso. Isso de tomarmos a pessoa pela obra, um objeto por outro... Isso de tomarmos as pessoas pelo... Sei, fui tomada. Tomada pelo... Pelo que acreditava. Perdi meu lugar, sou definitivamente aquilo. Eu fui me tornando a metáfora. Nada cabe mais, nada mais me alimenta ou mata a minha sede. Sem caminho de volta. À minha frente tudo é o mundo, e eu a ele me misturo. Quase tão passiva como o todo que segue ao sabor do vento. Isso de ser todo me incomoda. Isso de não ter braço, não ter pernas, não ter cabeça, sem as mãos, sem sangue nas veias que por sinal não existem... Essa coisa sem órgãos, sem organismos, sem ordem, sem organização. Essa coisa solta. No todo, perdida. Invisível. E tudo isso porque a coisa foi tomando forma, a minha forma. Tomando importância, se tornando cada vez maior a ponto de ser o todo. A ponto de ser eu a coisa. E a coisa era outra coisa. Era você, eram as cambalhotas. Sabe a sensação de vazio diante do todo? Você sabe desse vazio? Eu pensando: “Você o meu todo. E eu... Eu toda sua”. Meu Deus! Que loucura... Eu toda sua sem ser toda minha. Eu só sendo essa outra coisa. Outras coisas. É preciso ser muito ou pouco para se ser outra coisa? Mas não é isso, a pessoa é pessoa que vai sumindo, deixando de ser, se tornando. Acho que me tornei a projeção daquilo que eu precisava e acreditava ser você. Desesperadamente e nem sei porque me tornei. A coisa foi se misturando e o que era tão heterogêneo ficou um só. É como se eu procurando incontrolavelmente resposta de tudo isso que me parece engraçado, agora, tivesse me perdido diante de você que, não me entenda mal, veio e me roubou os sentidos. Foi aí que, diante da dúvida, a minha única certeza que era você foi onde eu me agarrei... Na certeza, naquilo que eu acreditava ser lindo. Não que isso implicasse que “a recíproca fosse verdadeira”, não é isso. Sempre achei que eu era mais sua do que minha mesmo. Do que você fosse meu. Sabe que analisando assim, as coisas, dessa forma fica claro. Na verdade tudo é uma busca. Tudo é dúvida que precisa do par; a resposta. Porque o problema é quando você olha em volta e vê que perdeu o lugar de gente pra sua porção coisa. Geralmente a coisa é muito maior do que parece. Mas na verdade você é que tem de ser maior. Sei, agora, eu aqui, olhando nossas coisas, percebo que na verdade muito pouco é meu. Percebo ter doado mais, me tornado mais, me preocupado mais, eu sendo mais, a mais, mas ainda sim muito pouco é meu. Acho que nunca consegui ser menos. Sempre fui péssima, você sabe, em matemática e subtrair me causa vertigem. Porém, nada mais de desmaios, por agora. Afinal eu não tinha a resposta pra sua metáfora que eu nem sabia se você sabia que era metáfora. Como já disse, nunca soube ao certo da dimensão de seu entendimento diante das metáforas, e acho que nem do meu. E talvez fosse eu a superficial, no final das contas. Já que fui eu quem se perdeu por cambalhotas. Quem foi se tornando coisa, se deixando engolir pelo todo. É, talvez seja isso.
E olha, ter me visto assim me fez complexa. Eu quase me tornando a mulher que carrega maçãs para viajar enquanto lê revistas fúteis. Como naquele conto que li para você, “Para uma avenca partindo” lembra? A despedida desesperada diante da falta de palavras ditas através das imagens, projeções da personagem. Como eu e você, minhas personagens de contos. Desse conto, que, apesar de não falar de cambalhotas, fala disso que não consigo responder.
Disso que me entala a garganta e me faz coisa. Mesmo porque talvez nem sejam as cambalhotas, talvez nem seja a metáfora, talvez nem seja você ou eu, não sei. Não sei nem mesmo se sei dar uma cambalhota, nunca tentei.
Nas minhas metáforas sempre deixei de fora o abismo que existia, o vazio que sentia, eu tinha que ser dois, nós dois. Tinha um mundo para construir. Um Abismo para preencher. Era o que eu negava. O que não queria ver. Era a minha estória, onde você era a figura linda sob a luz da lua, parecendo mentira. Acho que até suas falas eu escrevia. E foi então que na minha péssima noção de matemática não percebia que éramos três. Até que o terceiro se prontificou a falar, foi quando pude então perceber eu... Você...
E sabe, ter estado presente mais do que a mim foi pedido me desgasta agora. Trás presente a sensação de coisa. Acho que nunca consegui ser menos. Afinal, sempre fui péssima em matemática e subtrair me causa vertigem. Mas nada de desmaios. Nessa matemática equivocada fui sendo subtraída enquanto pensava estar somando. Teu silêncio infindo, minhas metáforas, nossas coisas, seus olhares, minhas palavras, nosso mundo. Você... Eu. Dói agora olhar tudo e constatar que muito disso nunca foi verdadeiramente seu. Talvez pela própria ausência sua. Pela própria ausência minha.
Porta, janela, cama. Armário, lençol, espelho. Livros, roupas, retratos. Discos, panelas, geladeira. Incensos, Cigarros, vinhos. Relógio, agenda, malas. Pão, tv, sapato. Telefone, carne, água. Chiclete, sandália, perfume. Camisinha, vela, bala. Gozo, alface, chocolate. É preciso que eu retome meu lugar de gente em meio às coisas. Recoloque tudo em seu lugar. Por que é preciso. Sem mais nomes, e nem metáforas. E sei da perda que isso implica. Implica a esse momento em que é inevitável a escolha, nesse que é o tempo de um suspiro......................................................Do meu suspiro.