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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Texto para Odete - Em 14/10/2002

Silêncio...
Aquilo que me sustentava estava aqui há pouco. 
Eu sei. Estava aqui para me manter de pé, eu a rocha.
Mas já não está. Se foi e, no entanto permaneço... 
Não foi preciso. Então, não era preciso.
Mas era meu ponto de equilíbrio, minha segurança, minha prisão consentida, limitada. 
Limitando-me, tornando estável, sólida.
Estava aqui há pouco. 
Mas... E agora?
Se tivesse força, romperia com as mãos. 
Permaneceria livre.
Tenho medo!
Medo do que posso ver, do que está do outro lado.

É necessário falar baixo para que eles não saibam do que sei. Eu sei... Sei de tudo. 
Senhor! Tira-me do peito isso que arde, me tira essa visão colada da retina, me põe de volta, me toma a fala, me põe louca. 
Salva na insanidade. 
Segura na mão de uma criança; dá-me a mão da criança, mãos infantis de salvação.
Mas é inevitável... Chega a hora... 
Por mais que eu queira o tempo estrangular, por meus dedos ele escorre. 
Mas o que dizer, nada sei. É inevitável. 
Tenho que dizer é tempo de falar, gritar... 
Escutem... Escutem...
A criança que tenho nos braços me rouba o seio esquerdo para se alimentar e no direito dorme tranquila...
Busca gotas d’água para me matar a sede e me trazer vida. 
A criança que tenho nos braços sou eu menina.


Para a atriz Fernanda Kahal... de quem tenho saudades de ver!