... e então ela se foi. Eu perdi. Perdi você em sonho. Não me vinha mais. E no fundo eu também fugi. Sabe, é que eu tive medo. Parecia coisa de criança. Eu me senti criança. Eu guardava um segredo... porque eu havia sonhado com ela. Mas não podia. Não podia? Mas ninguém ia saber... só eu e você... em sonho! Durante algumas noites, eu antes de deitar, pedi pra você voltar. Queria morar no meu sonho. Mas você não veio. Houve uma noite em que te esperei... sonhei que ficava sentada... sozinha. Acordei abandonada. Pra onde você foi? Por que não veio? Eu te chamei... estava te esperando... Você não veio. Acho que eu chorei, não lembro. Fiz questão de esquecer.
... e então eu me atrevi. Eu falei. Parei de dormir. Chega uma hora que o sonho precisa terminar. Alguma coisa em mim buscava o real. E eu precisava encontrar com algo de concreto. Afinal, você existia. Estava ali... E eu queria. Realidade. Do que a gente tem medo? Eu tive tanto medo... Havia um tempo que tinha medo. Medo de você. Medo da realidade. Mas eu não podia ser outra coisa agora. Não havia outra opção. Tudo em mim gritava por realidade. Claro que podia ter ficado em segredo... te olhando ir embora de longe. Eu poderia passar uma eternidade em silêncio. Eu poderia passar um existência te chamando a noite... E talvez você nunca mais me aparecesse. Foi isso... Foi isso o que me desesperou a consciência. Foi isso... essa possível falta de você. De repente eu não podia mais correr o risco de te esquecer. Eu não podia correr o risco de numa manhã não te ter mais na memória. Então, fui atrás do real. Afinal, você estava ali... há uma vida de distância.
... e então ela. Está tudo aqui. A sensação de certeza foi avassaladora. Tudo em mim dizia. É ela. Tudo parecia certo. Mesmo que por um noção outra pudesse soar errado, era certo. De uma maneira tranquila, eu não tinha dúvida. Eu queria. Eu facilmente já estava. Não tinha sombra, entende? Não tinha pesar, nem peso. Por mais que a realidade fosse turva, eu conseguia te ver adiante. Na minha frente. Do meu lado. Junto. E quando eu pude te sentir a pele, o cheiro, a boca, o gosto... era certeza que me dizia. É ela. E tudo parecia certo, certeiro. Tinha paz. Tinha eu sendo de verdade. E quando eu dormia a noite já não havia ansiedade pelo sonho. Porque ela estava aqui e ela quis ficar.
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