
Nunca fui boa em matemática, aliás sou péssima em questões numéricas.
Sempre gostei mais de literatura, história, biologia...
Era muito boa em biologia - Queria ter feito medicina!
Bom, não vou mentir dizendo que sempre gostei de português até porque tive muitos problemas pra aprender a escrever no meu tempo de alfabetização, mas sempre gostei das palavras. Gostava das possibilidades que elas me davam. Poder escrever coisas de formas diversas me encantava! E me encantava principalmente ver no rosto e nos olhos das pessoas as expressões que faziam ao ler algo que eu havia escrito. Era fascinante poder olhar as pessoas!
E ainda é!
Comecei a escrever desde muito cedo e desde muito cedo comecei a ter prazer escrevendo e entregando o que eu escrevia para quem quisesse ler. E também gostava de contar histórias.
AH! Eu pegava um livro, abria e lá ia eu contar histórias. Acontece é que eu não contava o que estava escrito - Pra que se já estava lá? Mais interessante era começar com o que lá estava e seguir minha linha de palavras nascidas, fresquinhas, da cabeça inquieta de menina.
Mas, como nada no mundo é perfeito, eu desenvolvi verdadeiro pânico dos ditados. Acontece que gostava de escrever o que me vinha na cabeça e não o que me diziam para escrever.
Lembro de uma vez que aprontei um caso por conta de um ditado. Minha mãe foi chamada na secretaria da Vila Marista para me socorrer. Eu chorava de soluçar... E na verdade eu só queria escrever o que me vinha a mente e não o que "tia" ditava. Mas era errado! Criança tem que fazer o que adulto manda e pronto! Naquele dia eu não fiz a prova. Fiz depois e fui muito mal.
O mesmo acontecia com as tabuadas. Eu fui decorar aquela loucura na terceira série do primário! Por que os meus números não podiam resultar no que eu imaginava? Por que eu tinha que passar tanta vergonha se meu 9x8 não dava 72?
Enfim, eu e o mundo concreto vivíamos em pé de guerra!
Sofri muito e passei muitas vergonhas públicas que me fizeram odiar os números e as letras.
Durante uma redação livre, me lembro bem, eu comecei a escrever... e escrevi... escrevi... escrevi... as imagens brotavam como água na minha cabeça e eu as derramava no papel feliz por poder regar ideias ali na folha branca. E depois de três folhas completamente escritas pedi a quarta à professora. Ela, ignorante, se recusou a me dar dizendo que aquilo não era brincadeira!
Brincadeira!? Quem estava brincando? E bruta tomou minhas páginas escritas, inacabada história... Dias depois me entregou toda rabiscada de vermelho... correções ortográficas!
Chorei mais uma vez... E a minha história? Você leu a minha história? E minhas imagens que brotavam como água, você as viu? Nada... terreno infértil...
Depois dessa tiveram outras... e outras... Muitas vezes colocada em destaque pelos erros, pelos tropeços... Foi quando decidi abandonar as letras e números.
Tomei duas bombas e terminei meus dias escolares no supletivo!
E me dediquei com afinco às artes!
Aprontava tanto, mas tanto que tudo o que minha mãe teve de paz com meus dois irmãos... ela teve de inferno comigo. Tantas vezes chamada às salas de direção do Colégio Marista Dom Silvério... Tantas vezes... Peripécias de uma cabeça água sem lugar para desaguar!
Um pouco na dança... um pouco no teatro... lugares que escolhi para transbordar.
E transbordava!!!
Mas nada mais da folha branca... a linda folha branca... como eu namorava aquele retângulo maravilhoso... AH... Eu queria escrever!
Então, clandestinamente comecei a fazer... Por pedaços de cadernos, em cantos de salas, no quentinho do meu quarto. Sem ninguém saber. Sem ninguém corrigir. Só pra minha realização. Só para que eu não me afogasse em meio às imagens-águas que prontavam...
Agora começo a sair do quarto, do canto, da clandestinidade.
Sei que sou disléxica... descobri tardiamente.
Impressionante que ninguém percebeu nos meus tempos de primeiras letras...
É que eu tinha muita criatividade, criança agitada e com certeza isso era o que me dispersava... Diziam todos os sábios adultos de forma repressora!
Ainda tenho um pouco de medo em escrever, confesso, não por medo de errar - errar é humano! e tem como corrigir - meu medo é do alcance das minhas palavras e de como elas serão interpretadas!
Medo dos meus limites e dos limites dos outros que me lêem quando esses se encontram!